“A expressão ‘sou ateu, graças a Deus’ é dita em italiano [e em português] como se fosse uma espécie de piada paradoxal, mas não o é tanto assim. É; precisamente enquanto herdeiro da tradição judaico-cristã, que pensa o real como criação e como história da salvação, que o pensamento pós-moderno se liberta, realmente da metafísica objetiva, do cientificismo, e passa a corresponder à experiência da pluralidade das culturas e da historicidade contingente do existir.” Diante das crises da Igreja Católica e das conseqüências da famosa afirmação de Nietzsche sobre a morte de Deus, Gianni Vattimo — integrante do Parlamento Europeu e professor da Universidade de Turim — questiona o destino da cristandade na pós-modernidade. DEPOIS DA CRISTANDADE mostra como fé religiosa para os que têm alguma familiaridade com a filosofia contemporânea e com a vida pós-moderna só pode ter sentido marcada pela incerteza de opinião. “O anúncio de Nietzsche segundo o qual Deus morreu, não é tanto ou principalmente uma afirmação de ateísmo, como se ele estivesse dizendo: Deus não existe”, argumenta o autor. Para Vattimo uma tese do gênero, a não existência de Deus, não poderia ter sido professada por Nietzsche, pois ao contrá;rio, a pretensa verdade absoluta que esta encerraria ainda valeria para ele como um princípio metafísico, como uma estrutura verdadeira do real que teria a mesma função do Deus da metafísica tradicional. O mundo efetivamente pluralista em que vivemos não mais se deixa interpretar por um pensamento que deseja unificá;-lo a qualquer custo, em nome de uma verdade definitiva, pois este, entre outras coisas, esbarraria nos ideais democrá;ticos. “Minha intenção é, acima de tudo, mostrar como o pluralismo pós-moderno permite reencontrar a fé cristã. Se Deus morreu, ou seja, se a filosofia tomou consciência de não poder postular, com absoluta certeza, um fundamento definitivo, então também não existe mais a ‘necessidade’ de um ateísmo filosófico. Somente uma filosofia ‘absoluta’ pode se sentir autorizada a negar a experiência religiosa”, explica Vattimo. DEPOIS DA CRISTANDADE analisa o papel da Igreja não apenas como veículo da revelação, mas também e sobretudo como comunidade de crentes que, na caridade, ouvem e interpretam o sentido da mensagem cristã. Esta é uma idéia de Igreja que encontramos, por exemplo, em vá;rios pensadores românticos e que é erroneamente considerada uma utopia a ser descartada com outras teses do idealismo dos séculos XVIII e XIX. “Talvez somente levando a sério essa utopia, o cristianismo se torne capaz de realizar no mundo pós-moderno a sua vocação de religião universal”, finaliza.
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